Paulo  Robalo

Descuidados de Deus - 2018

DESCUIDADOS DE DEUS

1.Os retratos

Estas figuras são os filhos de um deus menor, de um criador incauto e desatento. São a criação preguiçosa de um humano avacalhado na forma e consequentemente na sua beleza. Como se o criador napeiro,a despachar ,cria-se uma maqueta do que somos mas de forma negligente e sem brilho. Como se de toda a maneira chaleira,o produto da sua criação acabasse sempre num tosco do que deveria ser.

Estas figuras indignadas, revoltadas, iradas, agastadas, abespinhadas, incomodadas, maltratadas, ultrajadas, foram à nascença dilapidadas do seu ser. São sem embargo, seres inconformados com as injustiças desta desequilibrada ,perversa e desumanizada existência desenhada sem afia lápis.
O pintor, centra–se na delicada riqueza plástica destas enigmáticas figuras de olhar sábio. Opondo-se à pobreza dos princípios de criação apresentados. Acentua a nobreza do seu olhar ,a sua caracterização psicológica,a sua inteligência, os seus dotes e talentos. Dá voz ao seu grito e fixa o seu olhar no profundo olhar destes símios.

Transforma -os em desalinhados tocadores de concertina,contrariando os desígnios destes.
Descuidados de Deus ,que nasceram com uma mão cheia de nada e um futuro vazio de tudo.
Texto Paulo Robalo

Um salto para uma queda livre no impossível.

A verdade que nego e engano, é que nunca poderei ser homem, e o pior dos castigos é o facto de me entender quase-homem. Vejo-me assim, um ser inacabado, a faltar um nada para ser. Não entanto não.

Alguns procuramos o disfarce, a trapaça – a ver se passa – mas a imitação é sempre defeituosa, e mesmo que não pareça, por dentro de nós ficou a parte incompleta.

Mesmo que seja executado por um profissional – o figurino que nos disfarça de homens - , alguém atento, descobre facilmente as imperfeições. E somos apontados por todos, alvos de riso, do desprezo.

A pior coisa que se pode fazer a um homem é querer ser como ele. Desconfia de imediato, a seguir fica inseguro e defende o território, que diz ser seu, que considera ser toda a extensão de terra que um dia cartografou.

Eu queria tanto ser homem.

Apesar dos seus momentos – são muitos – de tristeza serem pungentes, às vezes uma dor aguda insuportável de viver, quando se realizam em grandes obras ou grandes pensamentos, efemeramente alegres, gozam do prazer da felicidade, um inexplicável que é um orgasmo do conseguimento.

Esse clímax só é dos homens. Nenhum outro ser seja animal, ou vegetal, ainda menos uma pedra, poderá jamais provar essa iguaria. E é isso o que nos falta, aos que estamos tão perto de sermos homens, e que falhamos por vontade de deus.

Ele é o culpado da nossa miséria, da sua miséria. Entediou-se com o acto da criação e deixou-a com um final suspenso. Dizem que se cansou, dizem que foi propositado, dizem que nos quis dar a oportunidade de nos completarmos, sublimando-nos.

Descansou ao sétimo dia e deprimiu. Desapareceu para parte incerta.

E só deu essa oportunidade aos homens.

Nós somos ”Os descuidados de Deus”

Para este projecto foram convidados o Musico João Godinho o Sound Designer David Diogo e o escritor Luis Robalo.

Partindo dos desenhos e do texto de apresentação do pintor,desenvolveram  um  processo criativo através das suas sensibilidades e interpretações pessoais.Nasceu assim uma partitura musical  que será interpretada ao vivo  durante a inauguração da exposição e apresentam -se os  textos que  complementam e aconchegam esta serie de pintura.

Os Músicos pensam assim:

Que sons habitam o universo de um ser inacabado? Há harmonia? Narrativa? Intenção? Ou apenas resíduos sonoros, desconexos, involuntários... um sub-produto musical à sua imagem e semelhança.

Esboço.

Criação.

Ruído.




Texto Luís Robalo

Paulo Robalo

Descuidados de Deus

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Descuidados de Deus

por Paulo Robalo