Paulo  Robalo

Duas personagens por tentarem
se assemelhar transformam-se
uma de cada vez em rinocerontes - 2019

Duas personagens por tentarem se assemelhar transformam-se uma de cada vez em rinocerontes

O RINOCERONTE DOS PORTUGUESES

Aproveitando a evidência, talvez triste, talvez patética de os rinocerontes estarem num processo adiantado de extinção, um facto aparentemente irrevogável, e porque o tempo da ficção em nada é como o real: pode-se engalfinhar o passado com o presente e o futuro, numa promiscuidade absoluta, fica nesta dito ficção, para já decidido (mas que se pode vir a alterar) que Deus se mimetizou de rinoceronte branco, decisão esta que tomou como já se disse anteriormente por não poder encarnar num unicórnio que não existe e porque gostou muito de tomar conhecimento que na época do início dos Descobrimentos, o Rei Dom Manuel I de Portugal foi-lhe oferecido, vindo da Índia, um rinoceronte que foi instalado no parque do Palácio da Ribeira.

O Rei mandou organizar um combate entre os dois animais, a que assistiram o rei, a rainha e as suas damas de companhia, e mais convidados importantes. Quando os dois animais se encontraram o elefante, entrou em pânico e fugiu quando o rinoceronte se aproximou dele.

De seguida o rei enviou uma embaixada a Roma, para garantir o apoio do Papa, na sequência dos sucessos dos navegadores portugueses no Oriente, querendo consolidar o prestígio internacional do reino. Entre as ofertas encontrava-se o rinoceronte, que usava uma coleira em veludo verde com rosas e cravos dourados.

Ao largo de Génova surgiu uma violenta tempestade, tendo o navio afundado. O rinoceronte, embora soubesse nadar, acabou por se afogar, por causa das amarras, mas foi possível recuperar o corpo. Ao saber, D. Manuel I ordenou que o rinoceronte fosse empalhado e enviado ao Papa, como se nada tivesse acontecido. Mas este não fez tanto sucesso junto do Papa como anteriormente tinha feito o elefante!

Imbuído deste conhecimento informativo, Desce assim, de novo, Deus à Terra.

Andavam os homens bons, os mortiços, ainda na fase experimental de serem rinocerontes, sem saberem se gostavam, se se adaptavam, quando Deus aparece na Terra, transvestido de rinoceronte branco. E que belo exemplar. Deus não olha a despesas para se apresentar em condições, seja apresentado de si mesmo, seja de outra qualquer criatura à escolha e à mão de semear, que ilustra aqui que Deus sendo omnipotente pode muito bem e sem dar satisfações aparecer como quiser e lhe apetecer. É o detentor da patente de tudo, tendo como seu um enorme e inesgotável calhamaço com todas as referências de patentes de sua propriedade. O rinoceronte é uma.

Apareceu um dia, pela manhã, na Praça do Marquês de Pombal. Como eram sete e picos e os pedestres e os automobilistas estavam atarefados com as suas idas para os trabalhos e escolas e o que seja de onde eles todos vão de manhã, ninguém deu por isso. Não houve estranheza, não se parou para ver o que era, nem para tirar um autorretrato. Pura e simplesmente ninguém deu conta da sua presença.

Como para ensaiar a mobilidade, o novo aparelho locomotor, Deus ensaiou um trote e uma corrida ligeira, rodeando a Praça. Apesar de sentir o peso do corpo (o que não deve ser pouco para quem não tem peso), entendeu rapidamente que o corpo não lhe permitia viragens bruscas, trocas rápidas de direcção. Foi levado a concluir que se for em linha recta pode atingir uma boa velocidade. Caso contrário, o melhor é ter paciência. Lá chegará. Onde tiver de ir. Também, não via bem o que estava à sua frente. Tendo uma antena enfiada entre os olhos e sendo estes ligeiramente sobressaídos, o seu ângulo de visão era para os lados. Cada olho para cada lado, em dessintonia. Uma complicação. Via sempre duas paisagens ao mesmo tempo, o que não deixa de ser original.

Sensações auditivas sim, mas ouvia melhor como deus do que rinoceronte. E não seria para melhor, sendo o criador que é, ou já foi, e ainda por cima evanescente, ouvindo todas as escalas, os tons e os semi-tons, da música das esferas, como rino não fazia falta ter tanto apuramento no ouvir.

Tacto também não. Naquela carapaça a lembrar uma armadura medieval nos seus piores dias, em que votada ao desleixo é deixada a criar ferrugens, seria muito difícil reivindicar um tacto fino, uma flor da pele. Esta é mesmo muitíssimo rija. Já dos pés, ou cascos ou lá o que são, para além de enquistados, têm gretas, fissuras. Nada cómodos portanto.

O único sentido que lhe pareceu, numa primeira impressão, sofrível, mesmo bom, foi o olfacto. Na extremidade mais longínqua do seu focinho alongado, tinha um belo par de narinas, generosas no tamanho, melhor dizendo na abertura das mesmas, permitindo uma função optimizada de inspirar e expirar, que lhe dava acesso à identificação de odores até uma distância razoável. Poderia pois, sendo este o seu melhor sentido, tirar conclusões sobre um ser que se lhe avizinhe, pelo cheiro. Há quem se conheça de toda uma vida pelo cheiro. Não é novidade.

Andava nisto das experimentações do corpo, às voltas no Marquês de Pombal quando vê, não se sabe se do olho direito ou do esquerdo, outro rinoceronte a passar. Cinzento. Logo mais um, outro ainda mais longe. Raios! Afinal não era ele e só ele o único rinoceronte na terra?

A história não começa bem.


Texto Luís Robalo

Não caimos nós continuamente? | 2020
150cmx150cm | técnica mista sobre papel

150cmx150cm | técnica mista sobre papel

Andam mortiços, meio desmotivados
145cmx98cm | técnica mista sobre papel

Rinoceronte empalhado
150cmx150cm | técnica mista sobre papel

Rino / Rufo - 2020
170 x 100 cm | Técnica mista sob papel vegetal

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Duas personagens por tentarem se assemelhar transforman-se uma de cada vez em rinocerontes

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150cmx150cm | técnica mista sobre papel

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150cmx150cm | técnica mista sobre papel

Não caimos nós continuamente?

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Sem título

por Paulo Robalo

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Andam mortiços, meio desmotivados

por Paulo Robalo

Andam mortiços, meio desmotivados.

145cmx98cm | técnica mista sobre papel

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Rinoceronte empalhado

por Paulo Robalo

Rinoceronte empalhado.

150cmx150cm | técnica mista sobre papel

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Rinoceronte empalhado.

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Rinoceronte empalhado.

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Rino / Rufo - 2020

por Paulo Robalo

Rino / Rufo 1

170 x 100 cm 2020 | Técnica mista sob papel vegetal

Rino / Rufo 1

170 x 100 cm 2020 | Técnica mista sob papel vegetal

Rino / Rufo 1

170 x 100 cm 2020 | Técnica mista sob papel vegetal

Rino / Rufo 1

170 x 100 cm 2020 | Técnica mista sob papel vegetal

Rino / Rufo 2

170 x 100 cm 2020 | Técnica mista sob papel vegetal

Rino / Rufo 2

170 x 100 cm 2020 | Técnica mista sob papel vegetal

Rino / Rufo 2

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Rino / Rufo 3

170 x 100 cm 2020 | Técnica mista sob papel vegetal

Rino / Rufo 3

170 x 100 cm 2020 | Técnica mista sob papel vegetal

Rino / Rufo 3

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Rino / Rufo 3

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Rino / Rufo 4

170 x 100 cm 2020 | Técnica mista sob papel vegetal

Rino / Rufo 4

170 x 100 cm 2020 | Técnica mista sob papel vegetal

Rino / Rufo 4

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Rino / Rufo 4

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Rino / Rufo 5

170 x 100 cm 2020 | Técnica mista sob papel vegetal

Rino / Rufo 5

170 x 100 cm 2020 | Técnica mista sob papel vegetal

Rino / Rufo 5

170 x 100 cm 2020 | Técnica mista sob papel vegetal

Rino / Rufo 5

170 x 100 cm 2020 | Técnica mista sob papel vegetal

Rino / Rufo 5

170 x 100 cm 2020 | Técnica mista sob papel vegetal

Rino / Rufo 5

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Rino / Rufo 6

170 x 100 cm 2020 | Técnica mista sob papel vegetal

Rino / Rufo 6

170 x 100 cm 2020 | Técnica mista sob papel vegetal

Rino / Rufo 6

170 x 100 cm 2020 | Técnica mista sob papel vegetal

Rino / Rufo 6

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Diversos - 2020

por Paulo Robalo

170 x 100 cm 2020 | Técnica mista sob papel vegetal

170 x 100 cm 2020 | Técnica mista sob papel vegetal

170 x 100 cm 2020 | Técnica mista sob papel vegetal

170 x 100 cm 2020 | Técnica mista sob papel vegetal

170 x 100 cm 2020 | Técnica mista sob papel vegetal

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170 x 100 cm 2020 | Técnica mista sob papel vegetal

170 x 100 cm 2020 | Técnica mista sob papel vegetal

170 x 100 cm 2020 | Técnica mista sob papel vegetal

170 x 100 cm 2020 | Técnica mista sob papel vegetal

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170 x 100 cm 2020 | Técnica mista sob papel vegetal